A pé ou de bike?

Se você já teve a oportunidade de ler o artigo 5 da nossa atual Constituição Federal, deve ter se deparado com vários direitos fundamentais, como o direito de ir e vir (inciso XV), por exemplo. Parece algo tão banal, mas ao mesmo tempo essencial para que nós vivamos de forma digna e possamos realizar as tarefas do nosso dia a dia. Dito isso eu questiono: como será que podemos exercer esse direito da forma mais sustentável possível? Seria a pé, de bicicleta, carro, ônibus, patinete? A resposta não é tão simples, eu garanto. Para eleger um meio de transporte devemos levar em conta para onde vamos, quando voltamos, quanto tempo temos disponível para isso e muitas outras variáveis.


Do ponto de vista ecológico, a regra é: quanto mais simples melhor. Por isso vamos começar com a opção clássica de deslocamento que é a caminhada. De acordo com o documento “Manifesto por cidades para pessoas a pé” publicado em agosto de 2020, caminhar “é o meio de transporte mais inclusivo, saudável, econômico, não poluente e com menor impacto ambiental”. Apesar disso, o Manifesto alerta que essa atividade pode também gerar adversidades aos praticantes, considerando a maior exposição ao ambiente, que torna a pessoa mais suscetível à assédios, assaltos, violência, discriminação. No caso de pessoas com alguma deficiência física, por exemplo, a falta de infraestrutura e acessibilidade podem prejudicar ou inviabilizar a conclusão do trajeto. Mesmo com esses contratempos, continua sendo a forma mais sustentável de deslocamento.


Em segundo lugar podemos mencionar o uso da bicicleta. Pesquisas indicam que, para viagens curtas, optar por pedalar ao invés de dirigir um carro reduziria as emissões de gases do efeito estufa em cerca de 75%. Ponto para o meio ambiente, mas, ainda assim, existem desvantagens. O uso de bicicletas demanda, primeiramente, investimento e também uma boa estrutura urbana. Como solução para a primeira questão, surgiram as redes de bicicletas compartilhadas, inovando no modelo “sem estação”, também conhecido como dockless, nos quais os usuários têm a opção de iniciar e finalizar as viagens em qualquer lugar, pois os equipamentos são acompanhados de localizadores. Para a segunda questão, é importante que as cidades disponibilizem espaços exclusivos para essa categoria de transporte, assim como São Paulo, que é a cidade com a maior infraestrutura cicloviária do país, segundo o portal Mobilize Brasil.


Existem percursos que, infelizmente, não são passíveis de conclusão por bicicleta ou a pé. Não digo que são impossíveis, mas provavelmente inviáveis. A caminhada mais longa no mundo partiria da África do Sul e chegaria na cidade de Magadan, na Rússia. Para concluí-la, precisaríamos de aproximadamente 3 anos. Mas sejamos realistas, o simples deslocamento de um estado brasileiro ao outro exige formas mais ágeis. Para decidir como se locomover, nesses casos, seguem algumas dicas: Pegar um voo ou dirigir sozinho são as opções que mais emitem gases do efeito estufa. O uso de trem é quase sempre a opção menos poluente para longas e médias distâncias. Compartilhar o carro e oferecer carona reduzirá as emissões de forma significativa. Para viagens internacionais, mesmo que dirigir o seu veículo seja uma opção, voar em classe econômica geralmente terá menor teor de carbono. Ainda sobre aeronaves, o melhor é evitar escalas e preferir voos diretos, pois a decolagem e a aterrissagem são os momentos de maior consumo de combustível.


Como eu comentei no começo, não há uma resposta certa. Toda vez que quisermos ir de um lugar ao outro teremos que fazer uma reflexão para encontrar o melhor e mais sustentável meio de locomoção. Lembrando que pensar no meio ambiente é (muito) importante, mas também precisamos considerar a nossa saúde e segurança. A ideia é que todos eles andem de mãos dadas.


Fontes:

https://comoanda.org.br/wp-content/uploads/2020/08/200808_ComoAnda-ManifestoColetivo.pdf

https://ourworldindata.org/travel-carbon-footprint

http://itdpbrasil.org/wp-content/uploads/2019/05/2-BSPG_Português-1.pdf

https://www.mobilize.org.br/estatisticas/28/estrutura-cicloviaria-em-cidades-do-brasil-km.html