Campanha #DeLivreDePlástico e a sustentabilidade de aplicativos de entrega

O uso de sistemas de delivery (entrega em domicílio) aumentou com a pandemia, resultado da necessidade de isolamento social e medidas restritivas. A ida ao restaurante foi, muitas vezes, substituída pelo envio da refeição até a casa do consumidor. Esse cenário fomentou o surgimento das “dark kitchens” (cozinhas escuras, em tradução literal do inglês), estabelecimentos de alimentação que operam exclusivamente por meio de entrega ou retirada, ou seja, não possibilitam consumo no local. Já aqueles que contavam com atendimento presencial, demonstraram grande adesão ao delivery para manter ou aumentar as vendas.

Simultaneamente, o uso excessivo de plástico descartável nas entregas tornou-se uma preocupação, pelo menos para mais da metade dos 1.000 usuários de aplicativos que foram entrevistados pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria). O levantamento, realizado em março deste ano de 2021, foi encomendado pela Oceana, considerada a maior organização internacional de defesa da conservação do oceano, e pelo PNUMA, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Além disso, a pesquisa também evidenciou que, de todas essas pessoas incomodadas com a quantidade de plástico que acompanha as entregas, 29% afirmaram já ter desistido de fazer o pedido por esse mesmo motivo. Com os dados em mãos, as duas organizações lançaram a campanha #DeLivreDePlástico, exigindo que os aplicativos de entrega de comida, mais precisamente iFood, UberEats e Rappi, reduzissem a quantidade de plástico descartável enviada aos consumidores.


Passaram-se alguns meses até que um deles, o Ifood, deu o primeiro passo. O aplicativo publicou um compromisso em sua página web, prometendo investir até dezembro de 2023, no mínimo, R$ 5 milhões na busca de soluções mais ecológicas. Também dentro desse prazo, 90% dos restaurantes parceiros do iFood deverão adotar a iniciativa de não enviar de talheres, pratos, copos, guardanapos e canudos plásticos aos clientes. Além disso, o compromisso engloba a definição de planos de trabalho, acompanhados de metas públicas, para minimizar o uso de outros itens, como sacolas plásticas e sachês.


Antes mesmo da promessa frente ao PNUMA e a Oceana, a foodtech já havia implementado outras iniciativas para diminuir o seu impacto no ambiente. Se você é usuário do aplicativo Ifood, provavelmente reparou que, ao fazer um pedido para entrega, é notificado que esse serviço já foi compensado, resultado da neutralização de todo o CO2 (dióxido de carbono) a ser emitido pelo aplicativo nos próximos anos. Isso foi possível por meio da compra de créditos de carbono em parceria com a empresa Moss e está vigente desde 1 de julho desse ano de 2021. Outro passo importante dado pelo Ifood foi o lançamento da Embalagem do Futuro, uma parceria com a empresa Suzano, criando um desafio para o desenvolvimento de embalagens de papel produzidas com matéria-prima renovável e livres de plástico.


Enquanto aguardamos uma mudança efetiva e também a movimentação dos demais aplicativos de entrega, acredito que o momento é convidativo para refletirmos sobre o impacto ambiental do delivery, as formas de responsabilização e sobre a mudança de cenário que estamos vivendo, afinal, mesmo com o gradativo retorno das atividades presenciais, entende-se que o sistema de entregas já conquistou o coração e o bolso de muitos brasileiros.

Mas será que a responsabilidade pelo uso de plástico descartável é exclusivamente dos aplicativos de delivery? A pesquisa que apresentei no início desse artigo revelou que 30% dos entrevistados atribuíram a eles um papel fundamental. No entanto, para que haja uma significativa redução do uso de plástico nas entregas, também é necessário que consumidores abram mão daquela segunda camada de plástico filme ou do sachê de ketchup de brinde. No mais, restaurantes precisarão adotar medidas próprias e buscar embalagens mais resistentes, biodegradáveis ou, até mesmo, compostáveis. Sem desmerecer o papel incentivador dos aplicativos, somente uma ação conjunta fará com que o sistema polua menos.

E por qual motivo precisamos mudar essa realidade? Com certeza, evitar a poluição plástica não é o único motivo - apesar de esse já ser um forte argumento - mas também pela saúde humana. É sabido que estamos ingerindo mais micro plástico do que nunca. Conforme um estudo realizado pela Universidade de Newcastle, Austrália, uma pessoa consome, em média, 5 gramas de plástico por semana, o equivalente a um cartão de crédito. Nesse cenário, um pensamento está se tornando cada vez mais comum: “pedi comida, não plástico”.

É possível responsabilizar os causadores dessa poluição, independente de quem sejam, pelo excesso de plástico descartável que acompanha os pedidos de refeições? A Lei municipal n. 17.261/2020 que entrou em vigor em janeiro desse ano de 2021 na cidade de São Paulo, apesar de não abordar especificamente o caso do delivery, proibiu o fornecimento de produtos de plástico de uso único em locais como bares e restaurantes. A normativa ainda estipulou multas de até R$ 8.000,00 caso o estabelecimento desrespeite a nova regra. Futuramente, saberemos a real efetividade e impactos positivos de leis como essa. Enquanto isso, teremos que continuar cobrando melhorias, valorizando iniciativas ecológicas e trabalhando, juntamente com aplicativos e restaurantes, para evitar que um almoço mate muito mais do que a nossa fome.


Fontes:

https://institucional.ifood.com.br/sala-de-imprensa/entregas-de-refeicoes-livres-de-plasticos-descartaveis