ESG: quem se importa ganha!

A humanidade passou por, não uma, mas quatro revoluções industriais. Seria injusto dizer que todas foram necessariamente boas ou ruins. Ao mesmo tempo que otimizamos processos e investimos em tecnologia, aceleramos a monocultura e a produção em massa de bens de uso único. Criações que pareciam inofensivas à primeira vista, acabaram resultando em prejuízos colossais ao ambiente natural, dificilmente reversíveis. O plástico sintético, por exemplo, desenvolvido de forma comercialmente viável em 1907, camuflava em sua inovação a poluição de rios e mares que causaria em pouco tempo. Com a produção em massa do material a partir de 1950, devemos hoje estar próximos da quantia de 10 bilhões de toneladas produzidas desde então.


Como consciência não vem de graça, foram necessários alguns eventos trágicos para que a comunidade global começasse a repensar o sistema de produção e consumo que estava adotando. Em Londres, 1952, a excessiva poluição atmosférica resultou no famoso Big Smoke, um nevoeiro tóxico que encobriu a cidade e gerou danos não apenas paisagísticos, mas também atingiu a saúde dos londrinos. Outro episódio foi o desastre de Minamata, no Japão, em 1956, quando muitas pessoas morreram e outras apresentaram sequelas neurológicas decorrentes de uma contaminação por mercúrio.


Ao mesmo tempo que fatos como esses alarmam a comunidade sobre uma produção descontrolada, avançamos muito na criação de bens de consumo para simplesmente voltar a viver da terra em pleno equilíbrio com os recursos naturais. Diante disso, algumas ideias e conceitos nasceram, buscando atrelar o desenvolvimento econômico, ao bem-estar social e, claro, à conservação do ambiente natural. No ano 2004, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, tomou a iniciativa de convidar 55 CEOs das principais instituições financeiras do mundo a integralizarem questões ambientais, sociais e de governança corporativa.

O convite resultou na elaboração e publicação, no mesmo ano, do Relatório Who Cares Wins: Connecting Financial Markets to a Changing World (Quem se importa, ganha: conectando os mercados financeiros a um mundo em mudança, em tradução literal), o primeiro documento a oficialmente mencionar o termo ESG, uma sigla para Environmental, Social and Governance (ambiental, social e governança, em tradução literal). Após essa menção oficial, a sigla ESG cresceu nas plataformas de buscas. O Google Trends, ferramenta que analisa o interesse dos internautas em determinado termo ao longo do tempo, retrata que a popularidade do ESG em setembro 2004 recebeu nota 32, já em setembro de 2021 atingiu o pico, nota 100.


Ainda que inovador, o Relatório não foi o primeiro a criar um tripé dentro da sustentabilidade empresarial. Na década de 90, John Elkington cunhou a frase "Triple Bottom Line", também comumente chamado de três P’s: people, planet, profit (pessoas, planeta e lucros, em tradução literal). A ideia era que uma empresa pudesse ser administrada de uma forma que não apenas ganhasse dinheiro, mas também colaborasse com a vida das pessoas e o planeta. Em um artigo para a Revista Harvard Business Review de junho de 2018 (25 anos depois), John Elkington anunciou o primeiro product recall, ou seja, reavaliou o termo criado por ele anteriormente. O pai da sustentabilidade, como é conhecido, refletiu que o tripé deveria ser mais que um sistema de contabilidade e análise de processos e questionou-se: qual a efetiva mudança que estava sendo feita pelas empresas?


Certamente, termos representam ideias, mas somos nós que devemos aplicá-las e garantir a mudança. Nesse sentido, uma das maiores gestoras de recursos do mundo, Black Rock, em carta anteriormente enviada aos clientes mencionou que “até o final de 2020, todos os portfólios ativos e estratégias de consultoria estarão totalmente integradas a critérios ESG”. Já neste ano de 2021, Larry Fink, atual CEO da gestora, garantiu que “empresas com melhores perfis ESG estão tendo um desempenho melhor do que seus pares, desfrutando de um prêmio de sustentabilidade”. Seria essa a concretização da promessa de quem se importa ganha? Tenho certeza que sim.


E como empresas podem caminhar para um futuro mais ESG? O Relatório que mencionei convida o setor empresarial a assumir um papel de liderança, implementando os princípios ESG e fornecendo informações sobre seu desempenho. No campo ambiental, reduzindo emissões tóxicas e a geração de resíduos, assim como priorizando a produção de produtos ecológicos. Na seara social, as empresas devem garantir a saúde, a segurança e os direitos humanos no local de trabalho. Por fim, mas não menos importante, recomenda-se que dentro do setor corporativo, sejam adotadas medidas de contabilidade e divulgação, garantindo transparência.


Se pensávamos que a sustentabilidade empresarial seria factível apenas em grandes empresas, nos enganamos. Desde o vendedor de produtos artesanais até o gigante do e-commerce, todos, de uma forma ou de outra, tem o potencial de ajustar os seus processos para que resultem em um benefício ambiental, social e também ao desenvolvimento da própria empresa. O termo ESG veio para ilustrar que não precisamos necessariamente escolher entre a manutenção do meio ambiente, garantir os direitos humanos ou buscar o desenvolvimento econômico. De forma nada egoísta, podemos (e devemos) ter os três.


Fontes:

https://d306pr3pise04h.cloudfront.net/docs/issues_doc%2FFinancial_markets%2Fwho_cares_who_wins.pdf

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-foi-inventado-o-plastico/