Mudanças climáticas: um problema de todos.

Vivemos em um mundo globalizado, mas a maioria dos países prefere manter a sua relativa autonomia. Isso, no entanto, não se aplica quando falamos de mudanças climáticas. Os danos gerados por um governo irão impactar todos os demais, sem exceção. Basta pensarmos que vivemos em uma bolha - atmosfera terrestre - e que não há muito espaço para fugirmos. Yuval Noah Harari, famoso autor do livro Sapiens: Uma breve história da humanidade, defende que "nenhum Estado soberano será capaz de superar o aquecimento global sozinho". Algumas regiões do planeta tendem a ser mais resilientes. Países desenvolvidos, por sua vez, dispõem de mais tecnologia para prever e minimizar os efeitos negativos de catástrofes naturais. Ainda assim, a conta chegará para todos.


De acordo com a base de dados do Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres, de 1970 a 2019 foram registrados 22.326 desastres e quase metade deles (49,6%) foram atribuídos ao clima e à água. A maioria das mortes relacionadas com eventos extremos ocorreu em países em desenvolvimento, enquanto as economias desenvolvidas sofreram a maioria dos danos monetários. A companhia de seguros Swiss Re estimou que catástrofes naturais causaram perdas de cerca de US$ 105 bilhões às seguradoras em 2021, a quarta maior desde 1970. O acontecimento mais custoso esse ano foi o Furacão Ida, que atingiu mais de 2.400 km nos Estados Unidos.


Estima-se que aqueles que menos contribuíram para a degradação, serão os primeiros, mas não os únicos, a sofrer as consequências. O Índice Global de Risco Climático (IRC) da Germanwatch analisa o impacto de eventos climáticos extremos em diversos locais no mundo. De acordo com a última edição do documento, os países mais afetados em 2019 foram Moçambique, Zimbabwe e as Bahamas, seguidos pelo Japão, Malawi e o Afeganistão. No mesmo ano, o Canadá publicou um relatório afirmando que o norte do país está aquecendo duas vezes mais rápido que a taxa média global. De forma geral, todos saem perdendo.


Atitudes negacionistas ou egocêntricas tendem a postergar um problema que poderia estar sendo remediado hoje. A China, que até 2017 manteve suas portas abertas para receber resíduos plásticos de outros países, decidiu naquele ano prezar pela qualidade ambiental dos seus centros urbanos e negar a importação do material. O lixo precisaria ir para outro lugar e foi então que a Malásia, Indonésia, Tailândia e demais países subdesenvolvidos asiáticos assumiram essa triste função. A queima dos resíduos nesses locais gerou severos danos à população e eles em breve também irão negar a importação do resíduo plástico. Quando isso acontecer, para onde o enviaremos? Não temos essa resposta.


Para muitos, as mudanças climáticas parecem invisíveis. Já para um dos fundadores da Microsoft, Bill Gates, compreender esse cenário é fácil. Basta observar a pandemia e imaginar esse estresse se expandindo por um período muito mais prolongado. Essa é a realidade que todos no planeta, independentemente de classe social, local de moradia ou cultura, irão enfrentar. Áreas costeiras são mais suscetíveis, pois o aumento do nível do mar acontece ali. No pensamento de Gates, elas precisarão se antecipar e criar formas de se proteger das catástrofes climáticas.

Agora que conhecemos a responsabilidade que estamos compartilhando, acredito que cabe uma reflexão: será que os países devem ter autoridade total sobre os recursos naturais localizados em seus territórios? E os mais poluidores ou os grandes emissores de gases do efeito estufa, poderiam ser efetivamente responsabilizados? Estabelecer uma conexão direta entre catástrofes naturais e mudanças climáticas é uma tarefa complexa. Mas a ciência já conseguiu fortemente demonstrar que sim, a ação humana sobre o clima aumenta as probabilidades de enchentes, furacões, secas severas, inundações, alagamentos, tempestades, ciclones e outras muitas consequências indesejadas. Sem dúvidas, precisamos de uma cooperação global para manter a nossa casa, a Terra, em ordem.


Fontes:

https://germanwatch.org/sites/default/files/Global%20Climate%20Risk%20Index%202021_2.pdf

https://library.wmo.int/doc_num.php?explnum_id=10902

https://www.swissre.com/media/news-releases/nr-20211214-sigma-full-year-2021-preliminary-natcat-loss-estimates.html

https://changingclimate.ca/CCCR2019/