Qual a mensagem trazida pelo Relatório do IPCC considerado um "código vermelho para a humanidade".

Jornais, canais de comunicação, blogs e muitas pessoas ao redor do mundo se surpreenderam com as informações trazidas pelo Relatório “Mudanças Climáticas 2021: a base da ciência física”, divulgado recentemente pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). O choque foi tanto que António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em declaração sobre o assunto chamou o Relatório de "um código vermelho para a humanidade". Diante dos fatos, Guterres foi extremamente assertivo. Não apenas estamos caminhando na direção, como já nos encontramos em uma situação trágica, afinal, como o documento ressaltou, muitas mudanças causadas pelas emissões de gases de efeito estufa (passadas e futuras) já são irreversíveis dentro de séculos a milênios.


Antes de comentar e compartilhar alguns pontos do relatório que justificam o espanto causado por ele, é importante entendermos como ele foi elaborado. Na era das fakes news, tanto pesquisadores como leitores em geral devem se basear em fontes confiáveis de informação, com respaldo científico e fundamentação rigorosa. Dito isso, o IPCC é o órgão da ONU voltado para avaliar dados relacionados às mudanças climáticas e reúne especialistas de todo o mundo. Fundado em 1988, sua tarefa inicial foi preparar uma revisão abrangente e recomendações sobre esse tema, atividade que executa até hoje. Para isso, o IPCC redige e publica os Relatórios de Avaliação, que são contribuições dos Grupos de Trabalho (existem três e na sequência comentarei sobre eles).


O IPCC está agora em seu sexto ciclo de avaliação e, portanto, está produzindo o Sexto Relatório de Avaliação (AR6), composto por um Relatório de Síntese (com lançamento previsto para 2022), três Relatórios Especiais, um refinamento de seu último Relatório de Metodologia e as contribuições de seus Grupos de Trabalho. O primeiro desses grupos e o responsável pela publicação alarmante que todos estamos ouvindo falar sobre, examina a ciência física aplicável às mudanças climáticas do passado, presente e futuro. Logo, os relatórios elaborados pelo Grupo 1 abordam temas como o efeito dos gases de efeito estufa na atmosfera e as mudanças de temperatura no ar, na terra e no oceano.


O segundo Grupo de Trabalho do IPCC avalia os impactos, a adaptação e também as vulnerabilidades relacionadas às mudanças climáticas. Sua contribuição para o AR6 está programada para ser finalizada em fevereiro de 2022. Já o terceiro e último Grupo de Trabalho escreve sobre a mitigação das mudanças climáticas, avaliando métodos para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e removê-los da atmosfera; devemos ter acesso à sua colaboração apenas em março de 2022. Entender essa estrutura de publicação nos faz crer que ainda teremos mais (boas ou más) notícias sobre as mudanças climáticas com o advento dos próximos documentos.


Para nos poupar da extensa e talvez cansativa leitura dos treze capítulos que formam o Relatório do Grupo de Trabalho 1, o próprio IPCC criou espécies de “manchetes”, contendo as informações principais. Ao abordar o atual estado do clima, o Grupo alerta que é indiscutível que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra. Ou seja, nós temos, sem sombra de dúvidas, a nossa parcela de culpa. Ao prever possíveis cenários futuros, o relatório garantiu que, independentemente de qualquer redução na liberação de gases do efeito estufa, a temperatura da superfície global irá continuar aumentando até pelo menos a metade do século, causando mais catástrofes. Ainda dentro do tema de emissões afirmou que, no que diz respeito à liberação do CO2, será necessário reduzir para zero (grande desafio, concordam?).


Diante de tudo isso, podemos entender que o relatório, além de conscientizar a comunidade mundial sobre o clima, trouxe perspectivas (mesmo que nada promissoras) de como será o nosso futuro no ecossistema terrestre. Por mais desanimador que seja, entendo que a real mensagem trazida pelo documento é a de que, sim, já estamos atrasados na luta contra as mudanças climáticas, mas continuar a não fazer nada tampouco é uma opção.


Fontes:

https://www.ipcc.ch

https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/#FullReport

https://www.un.org/sg/en/content/secretary-generals-statement-the-ipcc-working-group-1-report-the-physical-science-basis-of-the-sixth-assessment