Um tiro no escuro

A mente humana é definitivamente criativa e inovadora. Ao longo dos mais de 50 mil anos de evolução, colecionamos invenções e mecanismos que, em parte, facilitaram tarefas domésticas e aumentaram a expectativa de vida. De acordo com o estudo “How was life — Global Well-Being since 1820”, realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a expectativa de vida na América Latina e Caribe nos anos 1900 não ultrapassava 30 anos, já nos anos 2000 estava acima dos 70 anos. Uma simples invenção como o cinto de segurança de três pontas, criado pelo engenheiro da Volvo Nils Bohlin em 1959, reduz o risco de morte no trânsito em 45%. Da mesma forma, a descoberta da penicilina em 1928, por Alexander Fleming, garantiu tratamento e cura para grande parte das infecções. Embora as inovações humanas tragam todos esses bônus, elas também carregam ônus, principalmente quando as consequências não são mensuradas.


Lançamos constantemente produtos no mercado sem termos ideia do seu potencial destrutivo, a curto ou longo prazo. Tendemos a acreditar que será algo bom e preferimos “pagar pra ver” o efeito deles no ambiente natural, social e na saúde das pessoas. Podemos estar cometendo um erro em massa, afinal, a ciência demora para comprovar os malefícios e é durante esse espaço de tempo que a maior parte dos danos se torna irreversível. Vou comprovar isso com alguns exemplos. No início do século XX, Leo Baekeland criou a Baquelite, o primeiro plástico totalmente sintético e comercialmente viável, mas foi somente em 1970 que a comunidade científica se deu conta da existência dos microplásticos e da grande dificuldade de removê-los do ambiente. O Teflon, por sua vez, é utilizado como antiaderente em panelas desde 1950 e, na década de 90, moradores de West Virginia entraram com ações judiciais contra a empresa americana Du Pont, alegando que uma substância utilizada na produção do Teflon estava causando doenças graves na região, como câncer, por exemplo.


A história do tabagismo é outra que ilustra muito bem o tema deste artigo. O hábito de mascar tabaco já estava presente na sociedade quando, no final do século XIX, o mecânico James Bonsack criou a máquina de enrolar cigarros com o apoio do empresário James Buchanan Duke. A invenção permitiu que a produção de Duke, até aquele momento de 200 cigarros enrolados por turno, passasse para 120 mil cigarros por dia. A maior agilidade na fabricação gerou a necessidade de aumentar as vendas, motivando a empresa a investir em marketing (US$ 800 mil em 1889). Com isso, elevou-se o número de fumantes no mundo, consolidando um hábito que hoje é praticado por mais de 1 bilhão de pessoas. As leis e campanhas antitabagistas surgiram relativamente tarde, sem o poder de reverter os danos que esse objeto de consumo causou na saúde humana e também no ambiente natural, considerando que as bitucas foram o segundo item mais coletado e encontrado em praias no ano de 2019, de acordo com levantamento da ONG Ocean Conservacy.


Para além de itens físicos, o potencial dano de invenções virtuais também é reiteradamente menosprezado. As redes sociais, por exemplo, prometem diversão, entrosamento, comunicação e até mesmo prosperidade para negócios. De fato elas entregam isso, mas ao mesmo tempo estão causando impactos negativos na saúde mental dos usuários. O Facebook, proprietário também do Instagram e WhatsApp, é frequentemente acusado de ser conivente com esse prejuízo psíquico e social.


Tudo isso indica que devemos parar de consumir ou utilizar esses mecanismos existentes no mercado? Não é bem assim. A problemática reside justamente no fato de que, atualmente, as engenhosidades modernas já fazem parte da nossa realidade e dificilmente irão perder a sua utilidade. A minha sugestão seria que, moderadamente, ajustássemos os nossos hábitos, reduzindo o uso do plástico (optando por opções duráveis, por exemplo, ao invés do descartável), diminuindo o tempo dedicado às redes sociais, buscando uma alimentação mais saudável, aproveitando os recursos naturais de forma consciente e repensando nossas escolhas de consumo. Da mesma forma, empresas devem ter em mente que, ao inserir um produto no mercado, estão assumindo a responsabilidade pelo impacto dele no futuro do planeta. Uma ideia mal projetada pode ser um tiro no escuro e os atingidos seremos nós.

Fontes:

https://read.oecd-ilibrary.org/economics/how-was-life/life-expectancy-since-1820_9789264214262-10-en#page8

https://posfg.com.br/uso-de-cinto-de-seguranca-reduz-em-45-o-risco-de-morte/

https://www.business-humanrights.org/en/latest-news/an-update-on-the-dupont-chemical-federal-lawsuit-filed-by-local-attorney-robert-bilott/

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/11/121113_cigarro_pai_dg

https://oceanconservancy.org/wp-content/uploads/2020/09/2020-Report_-FINAL-EMBARGOED-TIL-SEPT-8.pdf